Governo reúne concessionárias de serviços essenciais e amplia ações preventivas, enquanto produtores enfrentam queda das temperaturas e Estado debate empreendimento de R$ 27 bilhões em Barra do Ribeiro
Por Redação Radar RS
Rio Grande do Sul, 15 de junho de 2026
O Rio Grande do Sul iniciou esta segunda-feira, 15 de junho, sob a influência de uma massa de ar seco e frio, com previsão de queda acentuada nas temperaturas e possibilidade de geada em diferentes regiões durante os próximos dias.
Ao mesmo tempo, o governo estadual ampliou as ações de preparação para um possível episódio de El Niño no segundo semestre. Nesta segunda-feira, representantes do Estado e de concessionárias responsáveis por serviços públicos reuniram-se para alinhar medidas relacionadas aos possíveis impactos de eventos meteorológicos extremos.
A agenda ocorre enquanto o Estado ainda convive com as consequências das enchentes, estiagens, temporais e outros desastres registrados nos últimos anos. Além das medidas climáticas, o dia foi marcado pelo debate sobre o projeto industrial da CMPC em Barra do Ribeiro, empreendimento estimado em R$ 27 bilhões que enfrenta questionamentos judiciais relacionados ao licenciamento ambiental.
Massa de ar frio avança sobre o Estado
O deslocamento do sistema de instabilidade que atuou sobre o Rio Grande do Sul durante o fim de semana abriu espaço para a entrada de ar mais seco e frio.
Entre esta segunda-feira e quarta-feira, dia 17, a tendência é de tempo estável na maior parte do território gaúcho, sem previsão de volumes significativos de chuva.
A queda das temperaturas aumenta a possibilidade de geada, principalmente na Fronteira Oeste, Campanha, Serra e Campos de Cima da Serra.
O fenômeno exige atenção dos produtores rurais, especialmente em propriedades com hortaliças, pomares, pastagens, animais jovens e culturas mais sensíveis ao frio.
As temperaturas baixas também afetam a população urbana. Idosos, crianças, pessoas em situação de rua e moradores de casas com pouca proteção térmica estão entre os grupos mais vulneráveis.
Frio amplia demanda por assistência
Com a proximidade do inverno, municípios gaúchos reforçam campanhas de arrecadação de roupas, cobertores e calçados.
O frio também pode aumentar a circulação de doenças respiratórias e a procura pelas unidades de saúde. Crianças pequenas, idosos e pessoas com problemas pulmonares ou cardiovasculares precisam de maior atenção.
Outro risco está no uso inadequado de equipamentos de aquecimento. Braseiros, fogões e churrasqueiras não devem ser utilizados em locais fechados, devido ao perigo de incêndio e intoxicação.
A população também deve observar as orientações municipais sobre acolhimento de pessoas em situação de rua e comunicar os serviços de assistência quando identificar alguém exposto ao frio intenso.
Estado reúne concessionárias para enfrentar riscos
Nesta segunda-feira, o governo estadual anunciou uma reunião com concessionárias de serviços públicos para alinhar ações de enfrentamento aos possíveis impactos do El Niño.
A preparação envolve setores essenciais como energia elétrica, abastecimento de água, saneamento, telefonia, transporte e infraestrutura.
Em situações de chuva intensa, alagamentos e deslizamentos, falhas nesses serviços podem ampliar os danos e dificultar o trabalho das equipes de emergência.
O objetivo é reduzir o tempo de resposta, organizar canais de comunicação e garantir que empresas responsáveis por estruturas estratégicas possuam planos de contingência.
A eficácia das medidas, entretanto, dependerá da manutenção de equipes, equipamentos e estoques de materiais em diferentes regiões, inclusive nos municípios menores e mais distantes dos grandes centros.
El Niño poderá exigir atenção no segundo semestre
A Defesa Civil estadual trabalha com cenários que indicam elevada probabilidade de formação de um novo episódio de El Niño entre 2026 e 2027.
Os modelos apresentados pelo governo apontam 63% de possibilidade de o fenômeno atingir intensidade muito forte entre novembro de 2026 e janeiro de 2027 em diferentes regiões brasileiras.
No Rio Grande do Sul, o período de maior atenção deverá começar no fim do inverno e avançar pela primavera.
A previsão não significa que as enchentes ocorrerão com a mesma intensidade em todos os locais. Os impactos dependerão da interação entre o El Niño e outros sistemas atmosféricos, além das condições dos rios, solos e estruturas urbanas.
Mesmo assim, a experiência das enchentes anteriores levou o Estado a iniciar a preparação com antecedência.
Municípios receberão diagnósticos de risco
Um seminário previsto para quarta-feira, dia 17, reunirá gestores de 70 municípios da Região Metropolitana e de áreas próximas.
A programação integra uma estratégia estadual para qualificar os planos de prevenção e resposta.
Sessenta municípios considerados prioritários deverão receber diagnósticos técnicos individualizados. Os documentos incluem informações meteorológicas, hidrológicas, geológicas, sociais e históricas.
Também serão apontadas áreas críticas, imóveis localizados em zonas de risco e possíveis deficiências nos planos municipais de contingência.
A seleção considera o histórico de emergências, o número de pessoas desalojadas ou desabrigadas, os prejuízos econômicos e a proximidade das áreas urbanas com rios vulneráveis.
Nova Secretaria de Defesa Civil está em análise
O governo também encaminhou à Assembleia Legislativa o projeto de criação da Secretaria de Proteção e Defesa Civil.
A proposta transforma a atual estrutura em uma pasta com dedicação exclusiva ao planejamento, à prevenção, à resposta e à recuperação diante dos desastres.
Entre as atribuições previstas estão o mapeamento das áreas de risco, o monitoramento do tempo, dos rios e do solo, além do apoio técnico aos municípios.
A estrutura deverá reunir servidores civis, integrantes da Brigada Militar, do Corpo de Bombeiros e militares temporários.
A criação da secretaria ainda depende da análise dos deputados estaduais.
Mais do que alterar a organização administrativa, a proposta precisará garantir orçamento, profissionais especializados e presença permanente nas diferentes regiões do Estado.
Debate sobre investimento de R$ 27 bilhões
Outro assunto de destaque nesta segunda-feira foi a mobilização em defesa do Projeto Natureza, da CMPC, previsto para Barra do Ribeiro.
O empreendimento industrial possui investimento anunciado de R$ 27 bilhões e é considerado pelo governo como um dos maiores projetos privados da história recente do Rio Grande do Sul.
A manifestação realizada em frente ao Palácio Piratini reuniu autoridades, prefeitos, parlamentares, entidades empresariais e representantes de municípios das regiões da Costa Doce, Carbonífera e Metropolitana.
O governo estadual afirma que o empreendimento poderá gerar empregos, renda e desenvolvimento regional.
O projeto, entretanto, tornou-se objeto de questionamentos judiciais relacionados ao processo de licenciamento e à avaliação dos possíveis impactos sobre comunidades indígenas.
Governo defende regularidade do licenciamento
Durante a mobilização, o governo afirmou que o licenciamento está sendo conduzido com rigor técnico e respeito à legislação ambiental.
O Executivo estadual também declarou que as exigências relacionadas às comunidades indígenas potencialmente afetadas estão sendo consideradas pelos órgãos responsáveis.
O próprio governo reconheceu que existe uma ação judicial contestando o processo e afirmou que apresentará seus argumentos na esfera jurídica.
A existência de um investimento elevado e de possíveis benefícios econômicos não elimina a necessidade de estudos ambientais completos.
Da mesma forma, questionamentos judiciais não significam automaticamente que o empreendimento seja irregular. Caberá aos órgãos ambientais e ao Judiciário analisar se todas as etapas legais foram cumpridas.
Desenvolvimento e proteção ambiental precisam caminhar juntos
O debate sobre o projeto demonstra um desafio frequente no Rio Grande do Sul: combinar geração de empregos, arrecadação e desenvolvimento industrial com proteção ambiental e respeito às comunidades atingidas.
Empreendimentos de grande porte podem movimentar a construção civil, o transporte, o comércio, a prestação de serviços e as cadeias produtivas regionais.
Também podem provocar aumento no consumo de água, circulação de caminhões, alterações no uso do solo e impactos sobre ecossistemas e comunidades próximas.
Por isso, o licenciamento não deve ser tratado apenas como uma burocracia. Ele precisa identificar riscos, estabelecer medidas de compensação e garantir participação às pessoas que poderão ser afetadas.
A transparência dos estudos será fundamental para evitar que a discussão fique limitada às posições do governo, da empresa ou dos grupos contrários ao projeto.
Safra apresenta recuperação, mas produtividade preocupa
No campo, os dados mais recentes mostram uma recuperação na produção de soja em comparação com a safra anterior.
A Emater/RS-Ascar estima que o Rio Grande do Sul tenha produzido aproximadamente 18,13 milhões de toneladas de soja na safra 2025/2026, aumento de 32,9% em relação ao ciclo anterior.
Apesar do crescimento, a produtividade média ficou em 2.707 quilos por hectare, resultado 14,8% inferior ao previsto antes do plantio.
A diferença mostra que o aumento da produção ocorreu sobre uma base anterior muito prejudicada e não significa que todas as regiões tenham alcançado bons resultados.
A elevada umidade, as neblinas, a baixa incidência de sol e as diferenças na distribuição das chuvas afetaram a colheita.
Milho cresce e arroz registra redução
A produção de milho foi estimada em 5,98 milhões de toneladas, crescimento de 13,1% na comparação com a safra anterior.
A produtividade ficou próxima da projeção inicial, mesmo com períodos de deficiência hídrica em algumas regiões.
No arroz, porém, a produção foi estimada em 7,76 milhões de toneladas, redução de 11,4%. A área plantada caiu 8,1% em comparação com 2025.
A primeira safra de feijão também apresentou retração. A produção estimada ficou 26,3% abaixo do ciclo anterior.
Os resultados demonstram como o clima, os custos de produção, os preços e o acesso ao crédito influenciam as decisões dos agricultores.
Culturas de inverno enfrentam incertezas
A semeadura do trigo avança no Estado, mas existe expectativa de redução da área cultivada.
Entre os fatores apontados estão as restrições de crédito, os elevados custos de produção, a utilização de menor nível tecnológico e as incertezas climáticas.
A cevada poderá sofrer redução de mais de 30% na área plantada, devido ao risco de excesso de umidade associado a um possível El Niño durante o inverno e a primavera.
A canola, por outro lado, apresenta perspectiva de expansão, impulsionada pela rotação de culturas e pelos resultados econômicos dos ciclos anteriores.
Para os produtores, o desafio será equilibrar custos, riscos climáticos e expectativa de preços no momento da comercialização.
Prevenção precisa produzir resultados concretos
Os acontecimentos desta segunda-feira mostram um Rio Grande do Sul dividido entre as necessidades imediatas e os desafios de longo prazo.
O frio e a geada exigem cuidados com famílias vulneráveis e atividades agrícolas. A possibilidade de um El Niño reforça a importância dos planos de contingência e da manutenção dos serviços essenciais.
O projeto industrial de Barra do Ribeiro abre uma discussão sobre empregos, desenvolvimento, segurança jurídica e proteção ambiental.
Já os números da safra mostram que o setor rural continua exposto às mudanças do clima, aos custos e às dificuldades de financiamento.
Reuniões, projetos de lei e diagnósticos são importantes, mas precisam resultar em obras, equipamentos, equipes treinadas e comunicação eficiente com a população.
Depois dos desastres registrados nos últimos anos, o Rio Grande do Sul não pode tratar a prevenção como uma medida temporária. Ela deve fazer parte do planejamento permanente do Estado e dos municípios.
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