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Propriedades levadas a leilão, juros elevados e sucessivos eventos climáticos aumentam a pressão sobre agricultores; produtores consideram medidas federais tardias e insuficientes diante da gravidade da situação

Por Redação Radar RS
Rio Grande do Sul, 16 de junho de 2026

O endividamento rural deixou de ser apenas um problema contábil e passou a representar uma grave crise econômica, familiar e de saúde pública no Rio Grande do Sul.

Depois de anos marcados por estiagens, enchentes, redução de produtividade, preços instáveis e aumento dos custos, milhares de produtores enfrentam dificuldades para manter as parcelas dos financiamentos, comprar insumos e preparar uma nova safra.

Em algumas comunidades, relatos de mortes por suicídio envolvendo agricultores aumentaram o alerta entre famílias, sindicatos e lideranças rurais. O assunto precisa ser tratado com responsabilidade: não existe uma estatística oficial atualizada que determine quantas dessas mortes foram provocadas diretamente por dívidas, e o suicídio nunca pode ser explicado por uma única causa.

Problemas financeiros, perdas profissionais, isolamento, conflitos familiares, adoecimento e falta de acesso a atendimento psicológico podem aumentar a vulnerabilidade, mas não tornam uma morte inevitável. A crise econômica exige respostas financeiras; o sofrimento humano, por sua vez, precisa ser atendido antes que alcance uma situação extrema.

Crédito rural em situação crítica

A dimensão nacional do problema aparece nos dados sobre o crédito destinado ao campo.

No início de 2026, operações rurais consideradas problemáticas — incluindo atrasos, inadimplência, parcelamentos e renegociações — alcançaram aproximadamente R$ 171,2 bilhões.

O valor mais do que quadruplicou em dois anos. A proporção dos créditos rurais sob algum tipo de dificuldade financeira passou de 5,5% para 19,6% no mesmo período.

Isso significa que praticamente um quinto do dinheiro emprestado dentro do sistema de crédito rural apresentava problemas.

Os pedidos de recuperação judicial e falência no setor agropecuário também avançaram. Em 2025, os registros cresceram 56%, depois de já terem mais do que dobrado no ano anterior.

Fazendas são levadas a leilão

Quando o produtor não consegue renegociar, a propriedade oferecida como garantia pode ser retomada pelo credor.

Em 2025, aproximadamente 14,2 mil imóveis rurais foram anunciados em leilões no Brasil, aumento de 30% sobre o ano anterior. Os procedimentos extrajudiciais, que podem ocorrer de maneira mais rápida, quase dobraram e chegaram a cerca de 2,4 mil propriedades.

Os números nacionais incluem diferentes regiões e situações. Mesmo assim, o Rio Grande do Sul aparece entre os estados mais atingidos pela inadimplência, especialmente nas áreas dependentes da produção de soja, milho, trigo, arroz, leite e outras atividades vulneráveis ao clima.

Para uma família rural, perder a propriedade não significa apenas perder um patrimônio. A terra geralmente concentra a casa, o trabalho, a história familiar, os equipamentos e a expectativa de continuidade para filhos e netos.

Por isso, a cobrança da dívida produz consequências que ultrapassam o balanço financeiro.

Cinco anos de perdas acumuladas

Os agricultores gaúchos enfrentaram, em sequência, estiagens prolongadas, enchentes, excesso de umidade e mudanças bruscas nas condições de cultivo.

Estimativas da Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul apontam aproximadamente R$ 126 bilhões em receitas que deixaram de ser obtidas durante cinco anos, considerando a diferença entre a produção esperada e o resultado efetivamente alcançado diante dos problemas climáticos.

As enchentes de 2024 atingiram mais de 206 mil propriedades rurais. Em diversas áreas, as águas destruíram cultivos, equipamentos, estradas e instalações, além de retirarem nutrientes do solo e deixarem terrenos improdutivos por longos períodos.

A recuperação não termina quando a água baixa. O agricultor precisa reparar máquinas, recuperar cercas, corrigir o solo, comprar sementes e alimentar os animais, muitas vezes sem ter recebido receita da safra anterior.

Quando um novo financiamento é utilizado para pagar o antigo, forma-se uma dívida crescente que pode se tornar impossível de administrar.

Juros elevados agravam a situação

O custo do dinheiro representa outra dificuldade.

Com os juros básicos do país em um dos maiores patamares do mundo, empréstimos para custeio, investimento e renegociação ficam mais caros. Mesmo operações inicialmente contratadas em condições melhores podem ser afetadas quando precisam ser prorrogadas ou substituídas.

O produtor também enfrenta aumento nos preços de fertilizantes, combustíveis, máquinas, peças, energia e serviços.

Ao mesmo tempo, o valor recebido pelas commodities pode cair. O agricultor compra os insumos antes do plantio sem saber qual será a produtividade, o clima ou o preço do produto no momento da colheita.

É uma atividade na qual praticamente todos os riscos ficam concentrados na família rural.

Sofrimento permanece escondido

No interior, ainda existe resistência em falar sobre ansiedade, depressão e esgotamento emocional.

Muitos produtores foram educados para suportar as dificuldades em silêncio e interpretar o pedido de ajuda como sinal de fraqueza. A distância dos serviços públicos e a falta de profissionais especializados também dificultam o atendimento.

O isolamento pode ser ainda maior nas pequenas propriedades, onde a mesma pessoa administra as finanças, trabalha na lavoura, cuida dos animais e tenta manter a família.

Sinais de sofrimento intenso não devem ser tratados como falta de coragem ou como parte normal da profissão. A pessoa precisa ser escutada e encaminhada para atendimento.

Cooperativas, sindicatos, Emater, secretarias municipais, bancos e empresas que mantêm contato diário com os agricultores poderiam receber capacitação para identificar mudanças de comportamento e aproximar as famílias dos serviços de saúde.

Medidas federais chegaram, mas crise continuou avançando

O governo Lula anunciou em setembro de 2025 um pacote de R$ 12 bilhões destinado à renegociação de dívidas de até 100 mil pequenos e médios produtores atingidos por eventos climáticos.

Em maio de 2026, o Ministério da Fazenda ainda discutia um novo modelo de renegociação, com fundo garantidor, dois anos de carência e prazo total de dez anos. O governo defendia que as condições especiais fossem oferecidas apenas a quem comprovasse perdas causadas pelo clima.

As medidas mostram que houve alguma resposta federal. Entretanto, para produtores e entidades representativas, elas chegaram tarde, possuem recursos insuficientes diante do tamanho da dívida e deixam famílias de fora por causa dos critérios de comprovação.

A burocracia também é criticada. Muitos agricultores não conseguem reunir laudos, documentos e demonstrações financeiras exigidos, especialmente quando as perdas ocorreram em várias safras consecutivas.

O contraste é evidente: enquanto o governo ainda negocia os detalhes dos programas, propriedades continuam sendo anunciadas para leilão e dívidas acumulam juros.

Crítica de descaso precisa considerar os fatos

A acusação de descaso contra o governo Lula se apoia principalmente na demora por uma solução ampla, na distância entre os valores anunciados e o endividamento total e na dificuldade de acesso aos programas.

O estoque de créditos rurais problemáticos, de R$ 171,2 bilhões, é mais de 14 vezes superior ao pacote de R$ 12 bilhões anunciado em 2025.

Isso não significa que todo o estoque precise ser pago pelo governo. Parte das dívidas envolve grandes empresas, produtores com patrimônio e operações que não estão relacionadas a eventos climáticos.

No entanto, a comparação mostra que os programas atuais não possuem capacidade para resolver sozinhos a crise.

Uma resposta adequada precisaria separar situações diferentes: agricultura familiar, médios produtores atingidos repetidamente pelo clima, propriedades economicamente inviáveis e grandes grupos empresariais.

Sem essa diferenciação, o dinheiro pode não chegar a quem realmente corre o risco de perder a terra e a fonte de renda.

Agricultor não pode ser tratado como adversário político

A produção rural não pode ficar presa à disputa entre esquerda e direita.

Pequenos e médios agricultores produzem alimentos, movimentam cooperativas, sustentam municípios e geram empregos. Muitos possuem pouca terra, trabalham com a própria família e não fazem parte de grandes grupos econômicos.

Quando o governo trata as reivindicações do setor apenas como pressão política, deixa de compreender a realidade de quem perdeu várias safras e continua pagando financiamentos.

Por outro lado, a defesa do produtor não pode ser usada para eliminar regras ambientais, trabalhistas ou sanitárias.

A política pública precisa proteger quem produz legalmente, diferenciar o agricultor endividado do infrator e criar condições para a continuidade das propriedades familiares.

Renegociação precisa impedir a perda da terra

Entidades rurais defendem alongamento das dívidas, juros compatíveis com a capacidade de pagamento e carência suficiente para que novas safras gerem renda.

Também são necessárias regras para suspender temporariamente leilões de propriedades atingidas por eventos climáticos enquanto os pedidos de renegociação estiverem sendo avaliados.

Outra proposta é substituir dívidas de curto prazo por contratos com vencimentos mais longos, vinculados à renda efetivamente obtida pela propriedade.

Sem essas mudanças, adiar algumas parcelas poderá apenas transferir o problema para os anos seguintes.

A solução precisa envolver bancos públicos, cooperativas de crédito, instituições privadas, União, Estado e representantes dos produtores.

Seguro e irrigação precisam ser ampliados

Renegociar dívidas resolve parte do passado, mas não protege as próximas safras.

Menos de 5% das terras agrícolas do Rio Grande do Sul contam com sistemas de irrigação. A cobertura do seguro rural também é insuficiente diante da frequência dos eventos extremos.

Investimentos em reservatórios, irrigação, drenagem, conservação do solo, sementes adaptadas e previsão meteorológica podem reduzir perdas.

O seguro precisa possuir orçamento previsível e indenizações capazes de cobrir o custo real da produção.

Sem proteção, cada estiagem ou enchente cria uma nova geração de dívidas.

Saúde mental deve fazer parte da política agrícola

A crise do campo não será resolvida somente dentro das agências bancárias.

Os municípios precisam oferecer atendimento psicológico acessível às comunidades rurais, inclusive por equipes móveis e teleatendimento. Profissionais das unidades básicas devem receber formação para compreender as particularidades da vida no campo.

Sindicatos, cooperativas e entidades também podem criar espaços de escuta sigilosa e orientar as famílias sobre onde procurar ajuda.

Não se deve esperar que o produtor peça atendimento quando já estiver em uma situação limite. A prevenção precisa chegar às comunidades, às feiras, às cooperativas e aos encontros técnicos.

Uma dívida não vale uma vida

A dívida rural pode ser renegociada, suspensa, alongada ou discutida judicialmente. A perda de uma pessoa não pode ser reparada.

O agricultor que enfrenta dificuldades precisa compreender que a inadimplência não define seu valor e não apaga uma vida inteira de trabalho.

O Rio Grande do Sul necessita de uma política emergencial para impedir leilões injustos, recuperar propriedades e oferecer apoio psicológico. Também precisa de um plano permanente de adaptação climática.

Ao governo federal cabe abandonar respostas fragmentadas e tratar o endividamento rural como uma crise nacional. Ao Estado e aos municípios, cabe aproximar os serviços das famílias.

A dura realidade do campo gaúcho exige menos disputa ideológica e mais presença pública.


https://www.radar-rs.com.br/dividas-perdas-e-sofrimento-psicologico-crise-no-campo-gaucho-exige-resposta-imediata/
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