Atingidos pela enchente de 2025 denunciam abandono e cobram auxílio direto do governo federal

Atingidos pela enchente de 2025 denunciam abandono e cobram auxílio direto do governo federal

Quase um ano após as chuvas que atingiram mais de 78 mil pessoas no Rio Grande do Sul, famílias questionam a ausência de um benefício federal semelhante ao Auxílio Reconstrução e enfrentam dificuldades para recuperar moradias, móveis e fontes de renda

Da Redação Radar RS

PORTO ALEGRE — Quase um ano depois das chuvas intensas e enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul entre 14 e 20 de junho de 2025, moradores de diferentes municípios ainda cobram uma resposta mais ampla do governo federal para a recuperação das famílias.

O desastre alcançou mais de 78 mil pessoas e voltou a inundar residências, interromper estradas, prejudicar lavouras e obrigar moradores a deixar suas casas. Na ocasião, o governo federal anunciou reforço da assistência social e informou que equipes mantinham contato com 103 municípios gaúchos.

A União também reconheceu a situação de emergência em cidades atingidas, permitindo que as prefeituras solicitassem recursos para cestas básicas, água potável, kits de higiene, limpeza, dormitório e outras ações de defesa civil.

As medidas foram importantes para o atendimento emergencial, mas não incluíram um novo benefício federal direto e abrangente semelhante ao Auxílio Reconstrução de R$ 5,1 mil, criado após a catástrofe de maio de 2024.

Para moradores que perderam móveis, eletrodomésticos, roupas, ferramentas de trabalho e parte da estrutura das residências em 2025, o apoio emergencial aos municípios não substituiu a necessidade de recursos individualizados para reconstruir a vida.

Benefício federal ficou limitado à enchente de 2024

O Auxílio Reconstrução foi criado pelo governo federal para pagar R$ 5,1 mil, em parcela única, às famílias desalojadas ou desabrigadas durante as enchentes de 2024.

As regras oficiais delimitam o programa às famílias residentes nos municípios que tiveram situação de emergência ou calamidade reconhecida pela União até 7 de junho de 2024. Dessa forma, os moradores afetados pelas novas enchentes de junho de 2025 não foram automaticamente incluídos no benefício.

A diferença de tratamento tornou-se um dos principais motivos de insatisfação.

Famílias atingidas em 2025 enfrentaram perdas semelhantes às observadas no ano anterior, mas não receberam da União o mesmo mecanismo de transferência direta para reposição de bens essenciais.

O governo federal manteve programas sociais, orientação técnica, apoio aos municípios e acesso a recursos de defesa civil. Entretanto, essas iniciativas seguem procedimentos administrativos e dependem da apresentação e aprovação de planos de trabalho pelas prefeituras.

Na prática, existe uma distância entre o reconhecimento da emergência e a chegada efetiva do auxílio à residência de cada atingido.

Estado pagou R$ 2 mil a famílias de baixa renda

Diante das enchentes de 2025, o governo do Rio Grande do Sul criou uma nova edição do programa Volta por Cima.

O benefício estadual pagou R$ 2 mil por família desabrigada ou desalojada. Para ter direito, era necessário estar em situação de pobreza ou extrema pobreza, possuir inscrição atualizada no Cadastro Único, viver em área oficialmente mapeada como atingida e residir em município com decreto de emergência ou calamidade homologado.

A edição foi encerrada em setembro de 2025, depois do pagamento de mais de 4,2 mil benefícios em 57 municípios. O investimento estadual superou R$ 8,4 milhões.

O programa ofereceu alívio a milhares de famílias, mas seus critérios deixaram de fora moradores que sofreram prejuízos e não estavam classificados nas faixas de pobreza exigidas.

Uma família pode ter renda formal acima do limite do programa e, ainda assim, perder todos os móveis, o automóvel utilizado para trabalhar, equipamentos profissionais e grande parte da residência.

O valor de R$ 2 mil também se mostrou limitado diante dos custos de reforma, retirada de entulho, limpeza, pintura, instalações elétricas e reposição de itens básicos.

Reconhecimento de emergência não garante pagamento automático

O reconhecimento federal da situação de emergência permite que os municípios apresentem pedidos de recursos à Defesa Civil Nacional.

As prefeituras precisam cadastrar planos de trabalho no Sistema Integrado de Informações sobre Desastres, detalhando danos, necessidades, metas e valores solicitados. Os pedidos são analisados tecnicamente antes da liberação.

O procedimento busca evitar irregularidades no uso do dinheiro público, mas pode se transformar em um caminho demorado para municípios com equipes reduzidas ou dificuldades para produzir levantamentos, projetos e documentos.

Enquanto os processos avançam entre secretarias, prefeituras e ministérios, as famílias precisam resolver problemas imediatos.

Aluguel, alimentação, transporte, material de construção e reposição de bens não podem esperar indefinidamente pela conclusão de etapas administrativas.

É nesse intervalo que cresce a percepção de abandono relatada por atingidos.

Apoio anunciado não equivale à recuperação concluída

O governo federal informou, durante a emergência de junho de 2025, que atuava em conjunto com as defesas civis, as Forças Armadas e a rede de assistência social.

Também foram anunciadas medidas para facilitar o pagamento do Bolsa Família e do Auxílio Gás e reforçar o atendimento nos municípios.

Essas ações integram a proteção social e devem ser reconhecidas. No entanto, não respondem integralmente à situação de quem teve a casa danificada ou perdeu os instrumentos necessários para trabalhar.

Receber uma cesta básica resolve uma necessidade urgente de alimentação. Não reconstrói paredes, não substitui instalações elétricas, não compra uma geladeira e não recupera uma pequena empresa inundada.

A crítica dos atingidos não se limita à inexistência absoluta de medidas. Ela está relacionada à diferença entre o volume dos anúncios oficiais e a ajuda concreta percebida por cada família.

Enchentes sucessivas acumulam perdas

O episódio de junho de 2025 ocorreu pouco mais de um ano depois da maior catástrofe climática da história recente do Rio Grande do Sul.

Muitas comunidades ainda se recuperavam das enchentes de maio de 2024 quando voltaram a enfrentar elevação dos rios, alagamentos e necessidade de abandonar as residências.

A sucessão de desastres aumentou a vulnerabilidade econômica de moradores que haviam utilizado economias, empréstimos e doações para reconstruir suas casas.

Em alguns casos, bens adquiridos depois da enchente de 2024 foram novamente destruídos em 2025.

Essa repetição também produz impactos emocionais. A previsão de chuva deixa de representar apenas uma mudança no tempo e passa a provocar medo de novas perdas e deslocamentos.

Reconstrução habitacional de 2024 ainda não terminou

Mesmo as famílias atingidas em 2024, que receberam um conjunto maior de programas federais, ainda convivem com uma reconstrução incompleta.

Em fevereiro de 2026, o governo federal informou ter contratado 10.588 moradias por meio do Compra Assistida, com investimento de R$ 2,1 bilhões. A União também anunciou a construção de outras 9.350 unidades, das quais 1.983 estavam em obras naquele momento.

Os números demonstram uma política habitacional de grande escala, mas também revelam que milhares de unidades permanentes ainda precisavam ser construídas quase dois anos depois do desastre.

No âmbito estadual, 526 famílias permaneciam em módulos habitacionais temporários em maio de 2026, enquanto aguardavam alternativas definitivas. Apenas 99 famílias haviam deixado essas estruturas para seguir para novas soluções de moradia.

Esses dados se referem principalmente à catástrofe de 2024, mas ajudam a explicar a insegurança de quem também sofreu perdas em 2025.

Quando a resposta a um desastre anterior permanece em execução, aumenta o receio de que os atingidos pelos episódios seguintes sejam incorporados a uma fila ainda maior.

Movimentos sociais denunciam subnotificação

O Movimento dos Atingidos por Barragens publicou, em maio de 2026, um balanço crítico sobre a reconstrução gaúcha.

A organização afirma que milhares de famílias não aparecem adequadamente nos cadastros oficiais e cobra maior busca ativa por parte do poder público.

Segundo os dados citados pelo movimento, 87% das famílias atingidas pelas enchentes de 2024 tinham renda de até dois salários mínimos e 65% viviam com menos de um salário mínimo.

Embora o levantamento trate principalmente do desastre de 2024, o problema da subnotificação também é relevante para os eventos de 2025.

Quem não aparece no cadastro, mora em área sem mapeamento atualizado ou possui documentação incompleta corre o risco de não receber auxílio, mesmo tendo sofrido perdas reais.

A dependência de bases de dados também pode prejudicar trabalhadores informais, moradores de ocupações, famílias que dividem o mesmo terreno e pessoas que perderam documentos durante a enchente.

Municípios enfrentam responsabilidades e limitações

A identificação das famílias atingidas depende fortemente das prefeituras.

Os municípios precisam mapear áreas inundadas, registrar os moradores, emitir laudos, elaborar planos de trabalho e encaminhar informações aos governos estadual e federal.

Quando existem falhas nesse processo, a família pode permanecer fora dos programas.

Isso cria uma divisão de responsabilidades que frequentemente deixa o cidadão sem saber a quem recorrer.

A prefeitura informa que aguarda a União. O governo federal afirma que depende dos dados municipais. O Estado exige decreto homologado e cadastro atualizado. Enquanto isso, o morador continua convivendo com o prejuízo.

Uma política eficiente de resposta a desastres precisa impedir que divergências administrativas entre os entes públicos sejam transferidas às vítimas.

Falta um programa permanente para eventos sucessivos

O Rio Grande do Sul vem enfrentando enchentes, enxurradas, estiagens, vendavais e deslizamentos com frequência crescente.

Mesmo assim, grande parte dos auxílios continua sendo criada ou reeditada depois de cada evento, por meio de decretos, medidas provisórias e regras temporárias.

Esse modelo gera diferenças entre vítimas de desastres semelhantes.

Uma família atingida em maio de 2024 pôde receber um benefício federal de R$ 5,1 mil. Outra, atingida em junho de 2025, precisou se enquadrar nos critérios estaduais para receber R$ 2 mil e não teve acesso automático ao mesmo auxílio federal.

A criação de uma política nacional permanente poderia estabelecer previamente:

  • critérios de identificação das famílias;
  • valores proporcionais aos danos;
  • prazos máximos para pagamento;
  • mecanismos de recurso;
  • atendimento a trabalhadores informais;
  • apoio para moradia provisória;
  • reconstrução de residências;
  • reposição de instrumentos de trabalho;
  • transparência sobre pedidos aprovados e rejeitados.

A previsibilidade reduziria a burocracia e impediria que cada nova tragédia exigisse uma negociação política desde o início.

Transparência deve mostrar quem ainda espera

Os governos federal, estadual e municipais precisam divulgar informações integradas sobre os eventos de 2025.

A população deve poder consultar:

  • quantas famílias foram atingidas;
  • quantas ficaram desalojadas ou desabrigadas;
  • quantas solicitaram auxílio;
  • quantas foram aprovadas;
  • quantas foram rejeitadas e por qual motivo;
  • quanto cada município solicitou à União;
  • quanto foi autorizado;
  • quanto foi efetivamente pago;
  • quantas casas continuam interditadas;
  • quantas famílias ainda dependem de aluguel ou moradia temporária.

Sem esses dados, anúncios oficiais e relatos dos atingidos parecem retratar realidades completamente diferentes.

A transparência permitiria identificar onde a ajuda funcionou e onde a resposta ficou paralisada.

Atingidos não podem desaparecer depois da emergência

Durante uma enchente, imagens de resgates, abrigos e ruas inundadas ocupam o noticiário nacional.

Quando as águas baixam, a atenção pública diminui. Para as famílias, porém, é justamente nesse momento que começa a etapa mais longa.

É preciso retirar lama, avaliar estruturas, buscar documentos, renegociar dívidas, comprar móveis e encontrar um lugar seguro para viver.

Quase um ano após as chuvas de junho de 2025, os atingidos não devem ser lembrados apenas em novos períodos de alerta meteorológico.

O reconhecimento federal da emergência e o apoio técnico aos municípios foram medidas concretas, mas não eliminaram a cobrança por auxílio financeiro direto, moradia e reparação.

Enquanto moradores continuarem aguardando respostas, vivendo em condições provisórias ou reconstruindo as casas com recursos próprios, permanecerá a percepção de que o Estado brasileiro chegou durante a emergência, mas não ficou até a recuperação completa.