A frase soa contraintuitiva no palco de uma das maiores feiras de máquinas, automação e inovação. Mas foi exatamente ela que Luis Justo levou ao Palco Conhecimento da 35ª Mercopar, na tarde desta terça-feira (20): em um mundo em que a tecnologia se democratiza e se transforma em commodity, o que vai diferenciar indústrias, marcas e profissionais são as competências humanas.
Eleito pela Bloomberg uma das 500 pessoas mais influentes da América Latina em 2022, Justo construiu a carreira liderando empresas brasileiras da indústria criativa com projeção internacional. Assumiu a Osklen aos 28 anos e comandou por 11 anos a expansão internacional da marca. Há 12 anos, é CEO da Rock World, onde conduz projetos como Rock in Rio e The Town, além da expansão da empresa para outros festivais e áreas de negócio.
Na palestra “Liderança do Futuro: Tecnologia que conecta, humanidade que transforma”, o executivo não falou sobre máquinas. Seu foco foi o que sobra quando todo mundo tem acesso à mesma máquina.
O termômetro do SXSW
Para sustentar a tese, Justo recorreu ao maior evento de inovação do mundo. “Praticamente este ano só se falou sobre isso: a necessidade de a gente ter esse olhar do diferencial humano num momento em que cada vez mais essas tecnologias estão aí disponíveis e acessíveis”, contou, referindo-se ao SXSW, em Austin.
O raciocínio é direto. Se a tecnologia está ao alcance de todos, ela deixa de ser vantagem competitiva e passa a ser pré-requisito. “As próprias empresas que vão se diferenciar no futuro são justamente aquelas que têm essas habilidades humanas para acessar disciplinas diferentes, formas de se relacionar com o cliente ou com a própria equipe diferentes, uma vez que cada vez mais as tecnologias vão ser commodities.”
O líder que escolhe a ferramenta – e não o contrário
Diante de um cenário em que “piscou o olho, já tem uma novidade”, o papel da liderança, na avaliação dele, se inverte. Primeiro vem a proposta de valor, depois a tecnologia.
“Eu vejo o líder primeiro apontar o caminho da proposta de valor e da cultura para depois decidir quais são as melhores ferramentas para entregar aquela proposta de valor. Tecnologia é ferramenta”, afirmou. E completou com uma crítica velada à pressa do mercado: “Às vezes você vê empresas ou lideranças muito mais numa pressa de adotar a tecnologia do que entender quais benefícios aquela tecnologia efetivamente vai trazer para aquele negócio entregar mais valor ao cliente.”
Na prática, o líder acumula dois papéis. É o guardião da cultura – “os valores originais daquela empresa” – e, a partir dela, o filtro que atrai quem adere a esses valores e repele produtos, estratégias e pessoas que não são aderentes.
Propósito não se delega
Questionado sobre como traduzir propósito no dia a dia da equipe, Justo foi categórico: ninguém trabalha pelo propósito do outro. “Ninguém pode estar trabalhando na empresa pelo propósito do chefe, do fundador ou do diretor da sua área”, disse. O papel do líder é fazer o match entre o propósito pessoal do colaborador e o que a empresa tem a oferecer – e vice-versa.
Ele lembra que o custo de ignorar isso já é visível no mercado: “Tem gente saindo para ganhar metade do que ganha em outro lugar porque aquela empresa oferece a possibilidade de estar mais próximo de exercer esse propósito”, reforça.
A conclusão volta ao ponto de partida da palestra: “Um bom líder essencialmente tem que ser alguém que gosta de gente. Quando você consegue esse alinhamento, sem dúvida constrói as melhores equipes de mais alto desempenho e gera progresso no negócio também”, conclui o palestrante.
Entrevista exclusiva: Luis Justo
Mercopar – Estamos numa feira de indústria, com foco em inovação e muitas máquinas. E sua proposta é falar do humano. Por que essa escolha?
Luis Justo – A gente está vivendo um momento de revolução e transformação na sociedade justamente porque a tecnologia está se democratizando, chegando à mão de todo mundo. E quando falamos não só de pessoas e profissionais, mas das próprias empresas que vão se diferenciar no futuro, são justamente aquelas que têm essas habilidades humanas para acessar disciplinas diferentes, formas de se relacionar com o cliente ou com a própria equipe diferentes, uma vez que cada vez mais as tecnologias vão ser commodities e mais acessíveis para todo mundo. Vi no início do ano, em um dos grandes eventos de inovação – o SXSW, onde já foram lançados o Twitter e grandes softwares –, que praticamente só se falou sobre isso: a necessidade de ter esse olhar do diferencial humano num momento em que essas tecnologias estão cada vez mais disponíveis e acessíveis.
Mercopar – E qual é o papel da liderança nesse contexto, em que a tecnologia muda muito rápido?
Luis Justo – Eu vejo o líder primeiro apontar o caminho da proposta de valor e da cultura para depois decidir quais são as melhores ferramentas para entregar aquela proposta de valor. Sempre falo isso: tecnologia é ferramenta e, às vezes, você vê determinadas empresas ou lideranças muito mais numa pressa de adotar a tecnologia do que de entender quais benefícios aquela tecnologia efetivamente vai trazer para aquele negócio entregar mais valor ao seu cliente. Então, primeiro, o líder tem que ser esse guardião de qual é a cultura e a proposta de valor da empresa, até para poder decidir que tipo de ferramentas ou tecnologias são as mais úteis. E o segundo ponto, sobre a própria palavra cultura: quando você fala dos desafios de uma empresa de expansão, de aumentar o volume de negócio e consequentemente trazer um time maior para a realização disso, ele tem que ser esse grande guardião dos valores originais daquela empresa. A partir de ser esse grande embaixador da cultura, ele pode não só atrair mais pessoas que aderem àqueles valores, como também repelir aquelas pessoas, produtos ou estratégias que não são aderentes à cultura original. Acho que ele tem muito esse olhar de apontar para o futuro e, apontando para o futuro, ser um guardião desses valores e atrair pessoas que confiam neles para construir esse futuro da empresa.
Mercopar – Entre pessoas, valores e o líder como guardião da cultura, fala-se muito em propósito. Hoje as pessoas não buscam só um salário, buscam um propósito alinhado. Como o líder faz esse match de valores com sua equipe?
Luis Justo – É super importante, como você falou, que ele seja uma ponte não só desses valores culturais, mas do próprio propósito do negócio e do propósito das pessoas. Sempre digo que ninguém pode estar trabalhando na empresa pelo propósito do outro, ou só pela cabeça daquele fundador, empreendedor, CEO ou diretor da sua área. Quando você consegue juntar quais são aqueles valores e os propósitos pessoais daquele funcionário com o que a empresa tem para oferecer e vice-versa – ou seja, a partir do propósito que a empresa precisa, você contribuir –, esse é o match perfeito, e o papel do líder está aí. A todo momento ele tem que estar interessado no propósito genuíno daquele colaborador para ter certeza de que a empresa, de alguma forma, está contribuindo para isso. Dessa forma você vai ter vida longa, os melhores profissionais ali, e não alguém trabalhando só pelo salário no final do mês. Até porque, especialmente quando falamos das novas gerações, cada vez mais engajadas nesses propósitos pessoais, tem gente saindo para ganhar metade do que ganha em outro lugar porque aquela empresa oferece a possibilidade de estar mais próxima de exercer esse propósito. Então o líder tem que ter um interesse genuíno e empatia. Por isso volto ao lugar do humano: um bom líder essencialmente tem que ser alguém que gosta de gente, que gosta de pessoas, para poder genuinamente se interessar pelo propósito do outro e fazer esse match. Quando você consegue de fato esse alinhamento, sem dúvida constrói as melhores equipes, de mais alto desempenho, e gera progresso no negócio também.

Fonte: Agencia Sebrae RS
