Agronegócio gaúcho encerra safra de verão com bons resultados no milho e atenção redobrada ao trigo e à sanidade

Agronegócio gaúcho encerra safra de verão com bons resultados no milho e atenção redobrada ao trigo e à sanidade

Soja e milho chegam à fase final de colheita, arroz confirma elevada produtividade e exportações movimentam US$ 3,2 bilhões; custos, crédito rural, risco climático e primeiros casos de greening preocupam produtores

O agronegócio do Rio Grande do Sul chega a esta quarta-feira, 10 de junho de 2026, em um período de transição entre o encerramento das culturas de verão e a implantação das lavouras de inverno.

A colheita da soja está praticamente concluída, o milho apresenta produtividade superior à observada em anos recentes e o arroz encerrou o ciclo com rendimento elevado. Ao mesmo tempo, produtores avaliam com cautela os investimentos em trigo e cevada, diante dos custos de produção, das restrições de crédito e do risco de chuvas excessivas durante uma possível atuação do El Niño.

O setor também enfrenta um novo desafio sanitário. O Estado confirmou os primeiros casos de greening em plantas cítricas, doença considerada uma das mais graves da citricultura mundial.

Colheita da soja alcança 98% da área

A colheita da soja atingiu 98% da área cultivada no Rio Grande do Sul. O tempo mais seco e a redução da umidade dos grãos favoreceram o avanço das máquinas e diminuíram os descontos aplicados nas unidades de recebimento.

A Emater/RS-Ascar estima uma área cultivada de aproximadamente 6,62 milhões de hectares, com produtividade média de 2.871 quilos por hectare. O resultado, entretanto, apresentou grande variação entre municípios e até mesmo entre propriedades localizadas na mesma região.

Lavouras atingidas pelo déficit hídrico entre janeiro e fevereiro, principalmente em solos rasos ou arenosos, tiveram produtividades inferiores a mil quilos por hectare. Em áreas irrigadas ou com melhor distribuição das chuvas, os rendimentos ultrapassaram quatro mil quilos por hectare.

Apesar das diferenças regionais, a produção estadual de soja deverá apresentar forte recuperação em relação à temporada passada. O governo gaúcho trabalha com uma estimativa de aproximadamente 18,3 milhões de toneladas, crescimento de 34,6% sobre a safra anterior.

A entrada desse volume no mercado poderá ampliar o movimento de cooperativas, transportadoras, armazéns, terminais portuários e indústrias de processamento.

Milho apresenta uma das melhores produtividades dos últimos anos

O milho está entre os principais destaques positivos da safra gaúcha de 2025/2026.

Dados apresentados à Câmara Setorial do Milho indicam que entre 95% e 98% da área já foi colhida. A estimativa aponta 831.496 hectares semeados, produtividade média de 7.757 quilos por hectare e produção próxima de 6,45 milhões de toneladas.

Caso os números sejam confirmados, o rendimento médio será equivalente a aproximadamente 129 sacas por hectare, considerando áreas irrigadas e lavouras conduzidas em sistema de sequeiro. Representantes do setor classificaram o desempenho como positivo e superior ao registrado em várias safras anteriores.

O resultado possui importância para diferentes cadeias produtivas. O milho é utilizado principalmente na fabricação de rações para aves, suínos e bovinos leiteiros, além de abastecer indústrias alimentícias e outros segmentos.

Uma produção estadual maior reduz a necessidade de trazer grãos de outras regiões e pode diminuir parte dos custos logísticos enfrentados pelas agroindústrias gaúchas.

Irrigação volta ao centro do debate

A irregularidade das chuvas observada nos últimos anos reforçou a discussão sobre a ampliação das áreas irrigadas.

O programa Irriga+ RS entrou em sua terceira fase. A iniciativa oferece subvenção equivalente a até 20% do valor do projeto, limitada a R$ 150 mil por produtor. O Estado informou que R$ 10 milhões estão disponíveis nesta etapa, com prazo de adesão até 30 de outubro de 2026.

Nas duas primeiras fases, aproximadamente 25 mil hectares teriam sido acrescentados à área irrigada no Rio Grande do Sul.

A irrigação não elimina os riscos climáticos, mas pode reduzir perdas em períodos de estiagem e proporcionar maior estabilidade à produção. O desafio está no custo dos equipamentos, da energia elétrica, da estrutura de armazenamento de água e da elaboração dos projetos.

Trigo começa com menor expectativa de área

Enquanto as lavouras de verão são concluídas, o plantio do trigo avança de forma gradual, respeitando o Zoneamento Agrícola de Risco Climático.

A Emater observa uma tendência de redução da área cultivada com trigo em 2026. A decisão dos produtores está relacionada à menor expectativa de rentabilidade, aos custos elevados, à dificuldade de acesso ao crédito rural e às limitações da cobertura de seguros.

Na safra de 2025, o Rio Grande do Sul cultivou 1,16 milhão de hectares, produziu aproximadamente 3,46 milhões de toneladas e registrou produtividade média de 2.968 quilos por hectare.

Parte das áreas poderá ser direcionada para a canola, plantas de cobertura ou outros sistemas de produção. Também existem sinais de redução no nível tecnológico utilizado, com maior emprego de sementes próprias e menor procura por sementes fiscalizadas.

Essa economia inicial pode representar um risco, pois sementes de menor qualidade e a redução de tratamentos podem aumentar problemas com germinação, doenças e produtividade.

Canola ganha espaço entre alternativas de inverno

A canola apresenta uma perspectiva mais favorável. A implantação ocorre dentro da janela recomendada, e as áreas mais precoces já se encontram em germinação, emergência ou desenvolvimento vegetativo.

A expectativa é de aumento da área, impulsionado pela busca de culturas com melhor possibilidade de retorno econômico. Em 2025, o Rio Grande do Sul plantou cerca de 174,4 mil hectares, produzindo 285,5 mil toneladas.

A expansão da canola contribui para diversificar a propriedade, melhorar a rotação de culturas e reduzir a dependência exclusiva do trigo durante o inverno.

A aveia-branca também avança no Estado. A tendência inicial é de manutenção da área próxima dos 393 mil hectares registrados na última temporada.

Cevada enfrenta preocupação com o El Niño

A cevada deverá perder área, mesmo com a oferta de contratos vinculados à indústria cervejeira.

Entre os motivos está o receio de que uma possível atuação do El Niño provoque aumento das chuvas durante o inverno e a primavera. O excesso de umidade nas fases de enchimento, maturação e pré-colheita pode reduzir a qualidade do grão e comprometer características exigidas pela indústria de malte.

Na safra passada, a cultura ocupou cerca de 32 mil hectares no Rio Grande do Sul, com produtividade média de 3.622 quilos por hectare.

O problema demonstra que o resultado econômico não depende somente da quantidade produzida. Para trigo e cevada, qualidade, sanidade, peso e características industriais são determinantes na formação do preço.

Arroz encerra colheita com produtividade elevada

A colheita do arroz está tecnicamente concluída no Estado.

O Instituto Rio Grandense do Arroz registrou 891.908 hectares cultivados, dos quais mais de 888 mil já estavam colhidos na terceira semana de maio. A Zona Sul foi a primeira região a atingir 100%, seguida pelas planícies costeiras, Campanha, Fronteira Oeste e Região Central.

A Emater projeta produtividade média de 8.744 quilos por hectare, mesmo com perdas localizadas em lavouras plantadas fora da melhor janela ou afetadas por eventos climáticos.

No mercado, o Cepea informou nesta quarta-feira que a demanda externa vem sustentando a recuperação dos preços do arroz. O indicador estava em R$ 59,38 por saca no fechamento de 9 de junho.

Mesmo com a reação, produtores continuam atentos à relação entre preço, produtividade e custos. O Rio Grande do Sul responde pela maior parcela do arroz produzido no Brasil, fazendo com que mudanças na produção estadual repercutam diretamente no abastecimento nacional.

Exportações alcançam US$ 3,2 bilhões

O agronegócio gaúcho exportou US$ 3,2 bilhões no primeiro trimestre de 2026, equivalente a 72% das vendas externas totais do Rio Grande do Sul.

O valor ficou 3,8% abaixo do mesmo período de 2025, principalmente em razão da queda nas exportações de soja, fumo e produtos florestais. A menor oferta de soja após a estiagem da temporada passada ainda influenciou os embarques do início deste ano.

O setor de carnes, entretanto, atingiu recorde para um primeiro trimestre, com exportações de US$ 743,1 milhões e crescimento de 22,4%.

As vendas externas de carne suína aumentaram 49,6%, enquanto a carne bovina avançou 44,8%. Os embarques de animais vivos cresceram 147,4%, com aproximadamente 84 mil bovinos enviados principalmente para a Turquia.

Máquinas e implementos agrícolas também tiveram alta de 24,2%. Entre os novos mercados, as vendas para o Egito avançaram 174,6%, impulsionadas pelo milho, e as exportações para as Filipinas cresceram 158,2%, principalmente com carne suína.

Agro lidera geração de empregos

O agronegócio respondeu por 49,3% dos novos empregos formais criados no Estado durante o primeiro trimestre.

Foram 23.123 vagas com carteira assinada, resultado de 96.327 admissões e 73.204 desligamentos. A agroindústria liderou a abertura de postos, seguida pelas atividades realizadas diretamente nas propriedades rurais.

A indústria de abate e fabricação de carnes alcançou 72.461 vínculos ativos em março, maior número já registrado para esse segmento no Estado.

Os dados demonstram que o impacto do campo vai além das lavouras e dos rebanhos. O setor movimenta transportes, oficinas, comércio de insumos, armazenagem, indústria de alimentos, serviços veterinários, tecnologia e exportação.

Primeiros casos de greening colocam citricultura em alerta

A confirmação dos primeiros casos de greening no Rio Grande do Sul tornou-se uma das principais preocupações sanitárias desta semana.

As plantas infectadas foram encontradas em um pomar doméstico com cerca de 20 mudas, no município de Palmitinho, próximo à divisa com Santa Catarina. A propriedade não está localizada em uma área de grande concentração comercial, mas as equipes estaduais e federais iniciaram o monitoramento da região.

As plantas contaminadas serão erradicadas, e o inseto transmissor será controlado. A principal hipótese é que a doença tenha entrado no Estado por meio de mudas irregulares já infectadas.

O greening não oferece risco à saúde humana, mas pode provocar deformação dos frutos, sabor amargo, perda de produtividade e morte das plantas. A doença não possui tratamento eficaz, o que torna a prevenção e a aquisição de mudas certificadas fundamentais.

Pesquisa fortalece pecuária e ovinocultura

O Rio Grande do Sul também recebe nesta semana um treinamento internacional da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura sobre resistência dos carrapatos aos produtos utilizados no controle da praga.

A capacitação ocorre em Eldorado do Sul e reúne pesquisadores e técnicos de sete países. O objetivo é padronizar métodos laboratoriais e criar uma rede internacional de acompanhamento da resistência aos carrapaticidas.

Em Hulha Negra, outra iniciativa começou a avaliar o desempenho e o potencial genético de 41 ovinos reprodutores da raça Corriedale. Os animais serão acompanhados até setembro, com análise do ganho de peso, da área de olho de lombo e da gordura subcutânea.

Esses projetos reforçam o papel da pesquisa na redução de custos, na melhoria da qualidade dos rebanhos e no aumento da competitividade da produção gaúcha.

Perspectiva é positiva, mas produtor ainda trabalha com cautela

O agronegócio gaúcho apresenta sinais de recuperação em 2026. Soja, milho e arroz sustentam volumes importantes, as carnes conquistam novos mercados e o setor continua liderando a geração de empregos.

A recuperação produtiva, entretanto, não elimina os problemas financeiros acumulados após sucessivas estiagens, enchentes e safras com margens reduzidas.

Para consolidar o crescimento, o Rio Grande do Sul precisará ampliar a irrigação, fortalecer o seguro rural, facilitar o crédito, investir em armazenamento e manter uma defesa sanitária capaz de responder rapidamente a novas doenças.

O desempenho das lavouras mostra a capacidade de reação dos produtores. O desafio agora é transformar a maior produção em renda, estabilidade e investimentos para as próximas safras.